PROJETO CONDOM PARA OS PROFISSIONAIS DO SEXO 
Entrevista com o enfermeiro Glauco César Ceranto,
Coordenador do Centro de Saúde Itatinga

O Centro de Saúde (CS) Itatinga foi criado na década de 80 pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenado inicialmente pelo Prof. Dr. Francisco Aoki. Era um local de pesquisas e uma extensão da universidade. Em seguida a Prefeitura Municipal de Campinas assumiu a administração da Unidade, porém não tinha profissional com nível superior para atender os usuários. Em 1998 o enfermeiro Glauco Ceranto foi convidado para coordenar o Centro de Saúde, montando uma equipe médica, odontológica, o serviço de vigilância sanitária e demais áreas de atenção primária à saúde.

Segundo o Coordenador da Unidade, a área de abrangência do CS Itatinga atende aproximadamente 6.000 pessoas, sendo que cerca de 2.500 é composta por profissionais do sexo; destes, 75% são do sexo feminino e 25% do sexo masculino. A população dos bairros vizinhos representa 3.500 usuários da Unidade, sendo que 80 a 85% desta população são dependente do SUS. Como exemplo da demanda, podemos citar o mês de abril de 2.000 quando ocorreram 1.167 atendimentos, cerca de 51 por dia.

O Coordenador ainda salienta que os dados da cobertura vacinal é muito acima da média de outras unidades, pois as mães que trabalham no Jardim Itatinga trazem seus filhos para serem imunizados nesta unidade de saúde, apesar de algumas residirem em outros bairros. A cobertura de exames ginecológicos também é alta devido a especificidade da população. 

Ele acrescenta que o maior problema encontrado pela Unidade é a drogadição, seguido pelo homossexualismo masculino, homossexualismo feminino e a prostituição feminina. Salienta que o bairro é conhecido como local de lazer, onde se encontram boates e casas de prostituição. Para atender a clientela sem intervir nas relações sociais sui generis que ocorrem no bairro é necessário uma grande adaptabilidade e compreensão das necessidades da população, portanto, os trabalhadores desta Unidade recebem treinamento apropriado para trabalhar com esta população.

O Projeto Condom prevê a presença de uma população vulnerável às DSTs, iniciando-se à partir do cadastramento do profissional do sexo e na entrega de trinta preservativos por semana. O programa vai além de oferecer condons e orientações para o sexo seguro: dá preferência de atendimento aos profissionais do sexo. São realizados periodicamente exames de sífilis, hepatite e, se o cliente autorizar, de HIV. Cada profissional do sexo tem prioridade de fazer exame sorológico e de Citologia Oncótica (papanicolau) a cada seis meses ou, no máximo, a cada ano, sendo controlado regularmente seu cadastro na Unidade. Dessa forma, este usuário terá prioridade sobre as outras pessoas ao agendar consultas com ginecologistas ou clínico geral diante alguma intercorrência referente ao aparelho genito-urinário relativo às ações do sexo, estando garantido na Unidade algumas horas vagas por dia para consultas não agendadas.

O CS Itatinga não está restrito apenas ao atendimento dos profissionais do sexo; ele também tem as áreas da saúde da mulher, do adulto, da criança, tem grupos de diabetes e hipertensão, agentes da dengue, além de realizarem prevenção de doenças e vigilância epidemiológica, assim como qualquer outra unidade. Porém o Projeto Condom é muito marcante na Unidade, atingindo, em média, 70% dos serviços realizados em procediemtnos e atendimentos.

Segundo o Coordenador, o profissional do sexo é responsável pelo seu próprio corpo, mas a Unidade de saúde se responsabiliza em auxiliá-lo a manter o auto-cuidado. A pessoa necessita estar protegida e oferecer proteção ao próximo usuário de seus serviços. 

Ele argumenta que a quota de preservativos por mês é pouca para os profissionais do sexo, pois estes chegam a realizar de 6 a 20 programas por dia. O ideal para se praticar o sexo seguro é utilizar um condom para  sexo oral, um para o vaginal e um para o anal em cada relação, caso contrário, os riscos de estourar o preservativo e comprometer a segurança do profissional são grandes. É orientado aos profissionais que é de extrema importância estarem conscientes em todos os momentos durante o trabalho, nunca excedendo o limite das drogas lícitas (álcool) e ilícitas (cocaína, maconha, crack entre outras), pois poderá perder a noção do que está acontecendo ao seu redor e se contaminar por uma outra pessoa que desconhece, pondo em risco a própria vida. 

O Projeto Condom prevê a visita domiciliar de enfermagem, realizando orientações sobre os parâmetros de proteção de sexo seguro, de anticoncepção e sobre a saúde em geral. É um trabalho que engloba a saúde da mulher, a saúde urológica do homem, a promoção à saúde, a saúde geral e o Projeto Condom. Entretanto, as visitas domiciliares se enquadram mais no programa de saúde da mulher, no programa de planejamento reprodutivo e na segurança das barreiras físicas para prevenção de doenças. O controle da freqüência do profissional do sexo à Unidade de saúde está relacionada principalmente com a retirada de preservativos, pois cada profissional tem um cartão de saúde do CS e somente ele poderá retirar condons.

Como os profissionais do sexo sofrem discriminações em nossa sociedade e por seus clientes, as relações com os trabalhadores desta Unidade de saúde são geralmente arraigadas e de confiança. O CS tenta resolver o máximo os problemas destes usuários especiais, e caso extrapole a complexidade do caso, encaminha-os para níveis de referência, como pronto-atendimentos e ambulatórios especializados, que já estão funcionando em sintonia com a Unidade Itatinga, procurando atender os casos com discrição.
 
O Projeto Condom não está escrito em nenhum documento específico. Ele apenas segue as diretrizes básicas do Ministério da Saúde e da Secretaria Estadual de Saúde nos seus departamentos de Prevenção às DST / AIDS . Quem monta as normas e diretrizes de programas são os municípios e as unidades. O Projeto Condom é de responsabilidade de uma câmara técnica, da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, na qual o Coordenador também faz parte. 

Ele completa a entrevista dizendo que a Unidade oferece aos indigentes da cidade o "dia do banho", ou seja, um dia específico da semana em que os "vias-públicas" (V.P.) procuram a Unidade de saúde para tomar banho, fazer a barba e raspar o cabelo. Suas roupas são descartadas em local apropriado e o indivíduo recebe vestimentas novas e limpas da Unidade, cedidas pelos moradores da região. Esta é mais uma das atividades inovadoras e de impacto social desenvolvida nesta Unidade.


Contato:  
Centro de Saúde  Itatinga
Rua Caiuá, 218
Jardim Itatinga – Campinas – SP - Brasil
CEP 13052-452
Fone: 0xx(19) 225-7145


Laerte Peres: aluno de graduação em Enfermagem na Unicamp e bolsista de Iniciação Científica da FAPESP 
ORIENTADORA: Profª Drª Maria Helena Baena de Moraes Lopes 
CO-ORIENTADORA: Profª Drª Márcia Regina Nozawa  


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