Segundo Fátima Seixas, a idéia
de trabalhar com o aconselhamento para o aleitamento materno surgiu após
o 9º Encontro Paulista de Aleitamento, realizado em agosto de 1998.
No Encontro do ano seguinte ela apresentou o trabalho “Aleitamento materno:
uma prática que vale a pena”, tema que ganhou o segundo lugar. Ele
é baseado no levantamento dos atendimentos das crianças na
puericultura no período de julho de 1998 a julho de 1999 no Centro
de Saúde (CS) Esmeraldina. Foi avaliado quantas crianças
saíram da maternidade com aleitamento materno e até que mês
de vida elas permaneceram amamentando. Depois do levantamento estatístico,
Fátima Seixas foi introduzindo a prática do aconselhamento
para o aleitamento materno.
Segundo o levantamento sobre o aleitamento
exclusivo feito no CS Esmeraldina (que tem uma área de cobertura de 11 bairros,
com 12.000 habitantes), de um total de 84 crianças atendidas no período
de um ano na puericultura, foram encontrados os seguintes resultados:
13% delas saíram da maternidade
em aleitamento misto; 8 % conseguiram amamentar exclusivamente
até o 1º mês de vida; 11% conseguiram ir até o 2º mês 15% até o 3º mês 16% até o 4º mês 9 % até o 5º mês 28% até o 6º mês Ela afirma que estes números não
estão muito diferentes dos encontrados na literatura. Nos casos
em que foi introduzido chás, água ou outros alimentos,
não eram mais considerados como aleitamento exclusivo.
A enfermeira comenta que o trabalho de
aconselhamento é feito à partir do pré-natal, durante
o “curso de gestante” e consultas; é nesta fase em que a futura
mãe irá decidir pela escolha ou não do aleitamento;
este trabalho continua durante o puerpério fazendo com que a mãe
venha o mais rápido possível para a unidade, de preferência
na primeira semana. Mesmo com todo trabalho realizado no pré-natal,
evidenciando a importância do aleitamento, a equipe avaliava que
os resultados encontrados não eram satisfatórios, pois as
mães não mantinham o aleitamento exclusivo até o 6º
mês. Foi decido sensibilizar as gestantes ainda no pré-natal e mudar a postura
da equipe diante dela, deixando o autoritarismo, onde
a mulher “devia, tinha e precisava amamentar” para uma estratégia
de escuta afetiva, tentando intervir sobre os problemas apresentados.
No CS Esmeraldina, assim como em toda
a rede de saúde de Campinas, existem as diretrizes básicas
de atendimento das consultas de enfermagem no pré-natal, que é
intercalada por uma consulta médica. Nestas consultas a enfermagem
já tem uma prática que aborda a importância do
aleitamento materno exclusivo, sendo avaliado as mamas da puérpera
ou ainda se elas necessitam ser preparadas para o aleitamento. É
a melhor fase de aconselhamento, pois a mãe está mais receptiva
para aceitar as informações. Após o parto é
muito difícil orientar, pois a “cabeça dela está voltada
para outras coisas”, acrescenta Fátima Seixas. Porém, após
o parto é bastante freqüente a mãe chegar à UBS
cheia de dúvidas, de dificuldades e incertezas, o que ainda possibilita
a intervenção da enfermagem. Para que isto ocorra há
necessidade de abrir espaço e tempo para este acolhimento.
Apesar da importância dada a amamentação
exclusiva, tanto pela Organização Mundial de Saúde
como inúmeros outros órgãos, ainda há profissionais
que não se integram a esta dinâmica. Nestes casos, acrescenta
a enfermeira, é feito um trabalho na tentativa de sensibilizar estes
profissionais, tanto da equipe médica quanto da enfermagem. É
uma tarefa trabalhosa pois é uma ação educativa; ouvindo
e trabalhando sobre as dificuldades encontradas pelos profissionais.
Para Fátima Seixas, este projeto
é eminentemente educativo e que não tem normas ou protocolos específicos de atendimento; é
um trabalho de escuta afetiva onde a mãe expõe suas dúvidas
e a enfermagem tenta intervir o mínimo possível. Argumenta
que conseguiu grande êxito na amamentação com as crianças
que já saíam do hospital sem o aleitamento. Contudo, foi um
trabalho que demandou muito tempo, o que ela considera como o principal
custo para o serviço: o custo-hora do profissional.
Ainda revela que existem algumas estratégias para um bom aconselhamento,
como um ambiente adequado, estar sentado no mesmo nível que a paciente
e de frente para ela e não colocar mesa entre o profissional e a
usuária da unidade de saúde.
Com o passar do tempo a prática
do aconselhamento foi sendo incorporada pela equipe como um todo, aumentando
a aderência e o vínculo das pacientes à unidade. Dessa
forma, o atendimento à mãe e ao recém nascido durante
a primeira semana passou a ser integral, ou seja, se ela tiver alguma problema
durante a amamentação a equipe irá orientá-la
e encorajá-la a não desistir da amamentação,
seja por problemas de fissura ou de ingurgitamento mamário. Nestes
casos, se ela criou bom vínculo com o serviço, não
irá procurar vizinhos ou parentes, mas sim o centro de referência
e procurar o profissional para orienta-la.
Durante o tempo em que trabalhou no CS
Esmeraldina, realizou a relactação em recém-nascidos,
porém revela que o profissional deverá estar muito atento
e a mulher ter vontade e desejo de amamentar, caso contrário
a criança não receberá leite materno exclusivo.
O trabalho de aconselhamento também
envolve os companheiros, pois “a questão da sexualidade entre o
casal necessita ser trabalhada”, refere a enfermeira. É um assunto
velado e que o profissional necessita estar atento para algumas falas do
pai ou da mãe. É interessante a presença do pai adolescente
nas consultas de pré-natal, pois ainda é economicamente dependente
e tem tempo de acompanhar a companheira, o que facilita o trabalho de aconselhamento.
Fátima Seixas afirma que cabe ao pai a função de auxiliar
e amparar a companheira, pois após o parto a atenção acaba sendo
centrada no recém-nascido.
O CS precisa deixar muito claro para a
gestante, principalmente durante as duas últimas semanas de gravidez,
a disponibilidade do serviço nos casos de dúvida ou problema
durante o puerpério. Outra forma de trazer as puérperas para
a unidade é a Declaração de Nascido Vivo, uma ficha
preenchida pelo Hospital que realizou o parto e enviada para o CS mais
próximo da puérpera. Apesar de ser um processo lento e pouco
eficiente, ainda é uma forma utilizada de tentar trazer a mãe
para a unidade. Finalmente, a aproximação puérpera-unidade
de saúde poderá ser feita com as orientações
que a maternidade oferece durante o período de parto no hospital.
O aleitamento materno é uma questão
educativa de longo prazo, necessitando ser trabalhada ainda na infância,
estimulando as meninas a darem o peito para as bonecas e não mamadeiras.
A enfermeira refere que existe hoje no Brasil uma legislação que proíbe a mídia vincular
propagandas que estimulem o aleitamento artificial.
A enfermeira Fátima Seixas conclui
que a orientação para o aleitamento é uma prática
da enfermagem, mas outros profissionais poderão somar esforços.
Contato:
Laerte Peres:
aluno de graduação em Enfermagem na Unicamp e bolsista de
Iniciação Científica da FAPESP
ORIENTADORA:
Profª Drª Maria Helena Baena de Moraes Lopes
CO-ORIENTADORA:
Profª Drª Márcia Regina Nozawa
COORDENAÇÃO | SOBRE A ESPECIALIDADE | BIBLIOTECA ONLINE | RECURSOS INTERNET | EDUCAÇÃO | PESQUISA | EVENTOS | CASOS CLÍNICOS | COLABORADORES | MAIS... | NOVIDADES | CONTATO |